Quando a aula acabou, meu coração bateu até mais forte. Peguei o ônibus e tentei repassar a conversa na minha cabeça pela milésima vez, mas era impossível. Decidi então que ia ser no improviso mesmo. Entrei na livraria e lá esta meu velho pai. Passei pelas prateleiras com os pés arrastando. Odiava aquilo, estava tudo em minhas costas. Sabia de todos os segredos da família e tinha o dever de revelar alguns. Apertei com força o postal que estava em minha mão. Respirei fundo, chamando a atenção do meu pai, que me fitou com um sorriso surpreendido. Era hora das máscaras caírem:
- Oi pai.
- Oi filha, o que faz aqui?
- Vim lhe entregar isto.
- O que é? Seu boletim?
- Não pai, só lê ok?
- Ok filha.
Aquele horrível silêncio enquanto meu pai lia me devastava aos poucos. Era como tirar as esperanças de uma pessoa, as vê indo embora. Por fim, ele mal conseguia me olhar e sua voz saia em um tom baixo, decepcionado:
- Vou conversar com sua mãe. Obrigado filha.
Ele me abraçou meio sem jeito e me beijou brevemente o topo de minha cabeça. Eu fui embora, quase chorando, deixando o postal para trás. Cheguei em casa cansada mesmo sem fazer nenhum esforço. Era um cansaço mental que não iria passar tão rápido. Mandei um SMS para a Malu contando o que ocorreu. Minha mãe apareceu então, fazendo um interrogatório que me tira do sério. Conto até mil, tentando me controlar:
- Chegou agora?
- Sim
- Por que não me chamou?
- Desculpe, força do hábito.
- Filha, sei que passei muito tempo fora, mas estou aqui agora...
- É, esta aqui para roubar um de seus filhos, assim você e seu amante, Carlos, ganham dinheiro fácil, né?
E-X-P-L-O-D-I. Posso ter sido um pouco dramática, mas assistindo Gossip Girl quase todo dia, a gente acaba aprendendo.
- Filha, como sabe...
- Me deixa em paz ok? Eu e minha família!
Sai correndo e me tranquei em meu quarto. Desabei. Tudo que conseguia fazer era chorar e soluçar. Sabia que não ia adiantar em nada, mas eu precisava colocar pra fora de alguma forma. Meu irmão entrou no quarto e viu aquela cena. Viu-me daquele jeito. Será que não podia ter um segundo de privacidade naquela casa?
- O que você disse para a mamãe, é verdade?
- Você ouviu né? Sim, é verdade.
- Sabia que ele queria algo.
Ele se sentou ao meu lado e eu deitei em seu colo, após alguns minutos, adormeci. Só acordei na hora do jantar. Meu irmão já tinha ido embora. Levantei-me e fui para a sala. A Mari e o namorado dela estavam lá. Tinha me esquecido da possível gravidez dela. Tinha que tirar esta história a limpo, então me escondi no corredor. Fiquei ali, ouvindo tudo o que era dito.
- Você trouxe?
- Sim, vou fazer daqui a pouco.
- Vai fazer agora amor, estou ansioso para tirar esta dúvida.
Ouvir minha irmã levantar e entrei no quarto do meu irmão, ele não estava lá mesmo. Ao ouvir o som da descarga, voltei para o corredor a fim de escutar tudo novamente.
- Esta ficando rosa.
- O que isso significa?
- Que estou grávida.
- Não pode ser...
- Meu pai vai me matar!
Depois destas palavras, o silêncio tomou conta do lugar. Ouvi um barulho na porta e corri para o meu quarto, deixando minha irmã para trás com o "problema" dela. No dia seguinte me arrumei com pressa. Queria contar logo as novidades para a Malu. Cheguei à cozinha e nenhum sinal da minha mãe. Meu pai estava sério.
- Vocês já estão bem grandinhos então vou falar de uma vez.
- Fala logo pai.
- Eu me divorciei oficialmente da mãe de vocês.

Aplaudimos e abraçamos meu pai. Já estava na hora de se livrar oficialmente da mala da minha mãe.

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