Aviso: Não recomendado a pessoas fracas.

Prólogo

- Eu amo você papai. - Meus pequenos olhinhos se fecharam rapidamente após sentir a forte respiração e os quentes lábios do meu pai tocar minha testa. Aquele calor, mal saberia eu como é ruim viver sem ele. Ou sem o cheiro do cigarro caseiro que meu pai fumava. Era sempre ele que me levava para a cama enquanto minha mãe reclamava o quanto os pés doíam após um dia cuidando da fazenda e meus irmãos debochavam, dizendo que era criança e precisa do meu pai me guiando para nenhum monstro me atacar. Nessa época morria de medo de bichos papões. Agora, tenho medo de descobrirem meu segredo. Mas isso é coisa pra ser contada outra hora. Nessa noite, que era pra ser a mais feliz do ano por ser tratar de meu aniversário de cinco anos, ocorreu um fato trágico.
A manhã fora normal. Eu e meus irmãos nos levantamos com minha mãe gritando e o barulho do ronco do trator a abafando. O Sol estava alto isso significara somente uma coisa, que meus pais demoraram suas tarefas por um motivo: meu aniversário! Com toda minha alegria infantil corri para a mesa do café da manhã que era composta basicamente por frutas e panquecas. Com minha barriga quase explodindo de tanto comer, coisa que não faço há tempos, fui a procura de meu pai. Eu já sabia o que ganharia, uma bicicleta. Daquelas rosa com rodinhas e cestinho. Meu sonho de consumo da época. E eu já sabia há tempos que meu pai a escondera no celeiro. Meus pequenos pés se puseram a correr entre a grama molhada que quase me cobrira mas logo cravaram de repente na terra ao escutar o que parecia uma briga. Meus olhos não puderam acreditar no momento em que vi meu pai estirado, seu nariz jorrava sangue enquanto um brutamonte que já vira antes, era nosso vizinho, o fitava com um sorriso diabólico.
O vizinho já se preparava para proferir outro soco quando algo ainda mais estranho aconteceu. Ele voou. Simplesmente tirou os pés do chão e foi jogado contra a parede. Mas o mais estranho foi o que aconteceu comigo, eu simplesmente apaguei. A escuridão tomou conta dos meus olhos antes mesmo que eu atingisse o chão sujo de feno do celeiro. Ao acordar, pensei que as cenas seguintes se tratavam de um sonho... Um pesadelo na verdade. Altas chamas por todos os lados. Christian, meu irmão mais velho, gritando enquanto caía junto com Blanca. Suas faces vermelhas enquanto tossiam descontroladamente.
- Cordélia! Corra! - Era a forte e imponente voz do meu pai mas parecia que havia algo mais, desespero?
Sem pensar duas vezes, eu corri pelo corredor. Quase tropecei na escada e gritei ao ver que as chamas dominavam a porta principal. Corri para a cozinha. A porta dos fundos estavam trancadas. Nas pontas dos pés tentei destranca-la, mas a fechadura estava quente demais por causa das chamas. Usando toda minha força, senti um repuxão em meu estomago. A porta abriu, assustando uma multidão armada com tochas e armas. Um grandalhão que parecia o líder ria como um animal selvagem, uma hiena louca para ver um corpo em chamas. Nunca vou me esquecer da voz dele, um tom embriagado, gritando palavras que eu não entendia. Algo como: ‘Queimem esses Diablos!’ O jeito como ele manuseava a tocha chamejante me fez choramingar baixo. Ele não teria medo de me queimar. A fumaça espessa já penetrava meus pulmões, os preenchendo. Minha visão se tornava cada vez mais turva. Cai no chão, arrancando mais risadas da multidão como se aquilo fosse um divertido show de horrores. Minha última visão se resumiu em uma luz que surgia no céu escuro como asteroide atingindo a orbita de Septem dona. Só que mil vezes mais forte.

II.

Como um anjo, ela me ninava junto ao seu corpo. Sua voz melodiosa cantava alguma canção em uma língua que desconhecia. O cheiro que pairava no ar era de álcool. Meus olhos ainda não se abriram, mas ao fazer, a surpresa arrancou um suspiro de mim. Como era bonita a mulher que me segurava. Seus cabelos loiros pendiam em cachos sobre os meus lisos e negros. Seu rosto era fino e sua pele tão alva que a linha vermelha que cobria suas bochechas e seu nariz se destacava. Eu sabia que nunca mais a veria novamente. Era como um doce antes de saber que teria de ir ao dentista. Uma chantagem do Estado para achar que depois do pesadelo tudo voltaria a ser bom como antes. Hoje sou obrigada a viver uma mentira. Fingir ser quem não sou. Mas sem essa mentira não estaria viva. Depois de provar a morte, nessas circunstancias, a mentira é a melhor saída.

III.

A Terra não existe mais. Tudo que existia nela fora destruído em uma explosão nuclear. Exceto um casal. Um casal com sorte que se escondeu nos confins da Terra, descobrindo assim como se contatar com outras galáxias. Com  a ajuda destas, criaram um novo mundo. Septem dona. Ou sete dons. Seis casais, um homem e uma mulher, das outras galaxias foram incluídos nesse novo mundo, sendo obrigados a procriar e a construir um lugar onde todo mundo tem o seu dom. Sete castas divididas a partir de seus dons. Ar. Água. Fogo. Terra. Magnetismo. Espirito. Uma casta não contém dons e esta tem como antepassados os humanos. O bem e o mal são bem definidos. Exceto por uma casta, que há anos vem sendo perseguida mesmo após o Estado dar proteção. O magnetismo, que não tem seus lados, bom ou ruim, definidos. Uma pessoa com este dom pode tanto manusear grandes pedras para auxilio de uma construção como manusear uma arma com o poder da mente. Tirando essa pequena desigualdade social com os pertencentes desta casta, os moradores de Septem dona vivem em perfeita harmonia. Mas é justa essa desarmonia entre os outros dons e o Magnetismo que dá um inicio para essa história. 

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