A vida escolar pode ser muito interessante para quem tira proveito dela. Ou seja, para nenhum adolescente de 16 anos a vida escolar pode ser prazerosa, exceto os Nerds e as líderes de torcida que vão para escola só transar. Era o segundo ano que eu passava naquela... Prisão. Para quem pensa que a escola é um lugar de aprendizagem e preparação para vida, tenho algo a te contar. Você vai ser um idiota caso se prepare somente na escola. A vida é muito mais do que aprendemos lá e disso, eu sou a prova viva.
Após alguns anos, após tantas mentiras e tantas tragédias, aprendi o meu lugar no mundo. Ou a lidar com o lugar que escolheram para mim. Pelo menos fizeram uma escolha na qual eu posso me manter viva. Mesmo com a mentira, eu tenho uma família, amigos e até um... Pretendente? É, posso chama-lo assim. Charlie é o tipo de garoto que toda menina sonha. Educado, inteligente, tímido, fofo, engraçado. E mesmo por debaixo da cabeleira ruiva e dos óculos redondos ele é de tirar o folego. Somos amigos desde a quinta série, mas só agora que começamos a nos ver com outros olhos. Eu sempre contei tudo a ele. Bom, quase tudo.
Charlie não é meu único confidente, tenho Wendy, minha melhor amiga. Ela é incrível e super calma, sempre me entendeu. Seu jeito bem zen me lembra aos vídeos que vejo dos Hippies de um tempo distante. Não é a toa que o dom dela é a água. Ela e Charlie não se dão muito bem, o dom dele é fogo e eles sempre competem para ver qual é melhor e eu? Sou a parte neutra da história, sem poder. Isso é o que eles pensam ou é o que eu os deixo pensarem. Mesmo com tanta mentira, somos um grupo distinto e legal. Prefiro mil vezes eles as líderes de torcida no qual sou obrigada a viver, pelos meus 'pais'.
- Vamos lá, Zóe... Pode treinar depois... - Cara, como eu podia dizer não ao incrível biquinho de Charlie?
- Eu não posso Charlie. Meus pais me matariam se soubessem que faltei ao treino! - O beijo brevemente, pois sabia como ele ficava vermelho com demonstração de amor em publico. - Vá a minha casa mais tarde, estarei te esperando próximo a velha fonte.
A expressão dele não era pra lá uma das melhores mesmo assim, ele sorri de canto e se despede ao ver o grande grupo das líderes de aproximar. Odeio cada uma delas e mais ainda as pessoas que me obrigavam a pertencer daquele grupo. Por que tinha que ser tão perfeita? Tinha que tirar nota A+ em todas as provas, em todos os boletins. Participar de grupos de debate, do coral, das líderes de torcida. Ir à igreja todos os domingos e participar de grupos de caridades. Até nos meus amigos eles queriam mandar, me fazendo frequentar festas da qual eu sabia que não iria me divertir. Eu já estou me cansando disso e conto os dias para ir para a faculdade, uma bem longe e começar a viver minha vida de adulto. Sozinha.
- Ei Zóe... A sem dom... – Tiffany sabe como me irritar. Se eu pudesse mostra-la o meu dom... Ela iria se arrepender. A mesma ergue algumas mechas do meu cabelo. – Pronta para treinar?!
- Mais pronta que você. – Meu tom é duro. Tive de travar meu maxilar para não demonstrar o quão tremia de raiva. Os olhos azulados de Tiffany pareciam gostar da minha resposta. – E você? Pronta?
- Ah querida, não se engane. Eu sempre vou estar pronta, pois nasci assim... Com um dom para meu auxilio, ao contrario de você que vai ter que se esforçar mais e mais para ser melhor do que eu ou qualquer um, até de seu namoradinho, fogoso. – Como ela conseguia ser tão cruel? Ela despertava algo ruim dentro de mim.
Sem pensar, ergo uma das minhas mãos, sentindo logo um repuxão na barriga, erguendo assim, Tiffany. Na verdade, ergui o colar de metal que ela usava, mas consequentemente ela veio junto. As outras garotas se espantam e gritam horrorizadas. Logo solto Tiffany, esta então cai no chão, incrédula. Ela me olha com uma raiva que nunca vira antes em seus olhos. Faço a coisa mais esperta que tenho para fazer, corro. Ouvi gritos do tipo: ‘Sigam aquele monstro!’ ao atravessar o campo de futebol. Enquanto me esforço em correr mais rápido do que conseguia, sinto minha respiração falhar e sabendo que se trata de Tiffany, manipulando o ar em minha volta, continuo a correr. Pulo a cerca e adentro a floresta. Meus pés já doem de tanto esforço, mas não posso parar, ouço passos ao longe. Elas devem ter avisado a alguns garotos do time de futebol para me perseguirem. Eles não gostavam de mim também desde quando disse não a proposta de dormir com eles. Em meio a galhos, árvores e lamas, lembro-me do atalho que eu e Charlie pegamos para ficarmos a sós. Passo pelo arco feito de pedra e corro ainda mais para não ser vista, a última coisa que quero é revelar a brutamontes o meu lugar secreto com Charlie. Mais calma, paro em uma sombra, respirando com muita dificuldade. O suor escorre por minha testa e meu coração bate tão rápido que faz meu peito doer. O que eu fizera? Tudo passou tão rápido, como um borrão. Estou zonza de cansaço, andando como uma bêbada, louca por água:
-         Zóe? – Charlie?
-         Char... Charlie? – Eu tremo como uma pessoa com epilepsia. Sedenta por água – Á... Água...
-         Zóe! – Os fortes braços de Charlie me seguram antes de eu atingir o chão. – Por onde andou? Toda escola está te procurando! – Minha visão esta turva. Estou me desidratando. Logo que ele percebera isso se pôs a procurar uma garrafa d’água e logo a achou, a colocando em minha boca. Ferozmente e rapidamente bebi todo o líquido. – Está tudo bem agora...
Não consigo falar nada, o susto ainda era grande. Agora me bate um desespero. Joguei toda minha vida fora em um único movimento. Antes mesmo de me recuperar, observo ao longe um grupo correr em minha direção. Charlie est horrorizado ao ver a cena e logo se põe a minha frente, com as mãos já em chamas. Levanto-me rapidamente, já recuperada por causa do susto. Meu uniforme de animadora de torcida já esta todo sujo de terra e surrado, e meu penteado já esta todo desfeito. As expressões dos garotos que vem em nossa direção se resumem em raiva e ódio. Moramos em uma cidade do interior onde todos se conheciam desde pequenos. Eu sou a esquisitona ali que chegara com oito anos de um lugar desconhecido. E, além disso, ‘não tenho’ dom algum como o resto da minha família. Na verdade só meus ‘pais’ que não tem dons. Eu tenho um dom, acho que isso já ficou bem obvio. E meu dom é perseguido desde o inicio de tudo. E as pessoas que ali agora me perseguiam deixavam bem claro que eu seria exterminada por meu dom ‘maligno’, já que este não é bem vindo e nunca será.
-         Ei, garotos, o que esta acontecendo? – Charlie apaga as chamas ao ver que os rapazes não se aproximam. Eu continuo em pé atrás dele, já pronta para correr caso fosse preciso.
-         Sabe sua namoradinha? Ela é uma Congue!– Quem fala isso é Brad. Só o conhecia por causa de Jane, a líder das animadoras de torcida. Tanto ela quanto ele, só pensavam em si mesmo e na popularidade. – Ela é uma farsa, não é uma sem dom e sim uma magnetisa!
Uma expressão de horror toma a face da maioria dos rapazes que estão ali, inclusive de Charlie que se vira para me fitar. Meus pés se arrastam para trás, me obrigando a andar lentamente para longe dele. Logo seus braços voltam a ficar em chamas. Os meninos atrás dele usam seus diversos dons para me amedrontar. Água, ar, terra, mais fogo. Eu estou em menor número e logo serei atacada, ou seja, morrerei. Sinto um repuxão na minha barriga, como mais cedo e minha visão se torna cada vez mais turva. Aquilo é bem mais forte do que mais cedo. Em poucos segundos, como se uma onda arrebentasse contra as pessoas na praia, os garotos se afastam, caindo uns sobre os outros. Charlie voa sobre Brad, os derrubando próximo a uma árvore. Antes de correr, só grito, principalmente para Charlie:
-         Desculpe-me!
Como antes me ponho a correr, mas não pela trilha e sim pela mata fechada. Logo os garotos estarão atrás de mim novamente. Corro sem me importar com os arbustos e espinhos que insistiam em me arranhar. Com os galhos que batem em minha face e puxam meus cabelos. Meus tênis brancos já estão marrons por causa do barro e minha roupa, que antes era verde e dourado, está agora um misto de marrom e amarelo mostarda. Não observo bem para onde corro ou para onde estou correndo. Não faço a mínima noção de onde estou até cair em um córrego. Aquilo é só uma pequena parte do grande rio que cortava Magna quercus
A água me dá um belo banho, me fazendo acordar do transe ‘corra sem parar’. Se eu seguir pelo córrego, posso alcançar a ponte Wisdom e assim a rodovia 57. Encharcada me ponho a correr. Não escuto nenhum passo atrás de mim, mas saberia que logo eles estarão ali, me perseguindo, me atacando com fogo, evocando raízes para me atrapalhar ou me encharcando mais ainda. Minha única salvação será alcançar a rodovia e conseguir uma carona para a cidade mais próxima. Naquele momento a escola toda, o bairro todo, a cidade toda já sabe do meu poder que ocultei ou pelo menos tentei ocultar todos esses anos. Charlie deve estar sentindo nojo de si mesmo e pela primeira vez na vida Wendy sentiria raiva. Meus pais ligariam para seus comandantes, dizendo que a missão fracassara e talvez coloquem alguns militares a minha procura, mas logo perceberão que eu não estava nos arredores então as buscas iam se cessar e tudo voltaria ao normal.
Meus pés doem e toda vez que eu piso parecem que estou pisando em cacos de vidros. O Sol já se põe e o clima fica cada vez mais frio. Se eu não chegar a rodovia e conseguir uma carona para a outra cidade logo, quando a noite chegar, morrerei de frio e fome. Enquanto acaricio minha barriga, pensando em um cheesburguer acompanhado por fritas e milk shake de chocolate ouço um ruído vir do céu. Logo fortes luzes me cercam. Cerro os olhos, conseguindo então, enxergar um helicóptero acima de mim, sobrevoando baixo. Deve está a minha procura. Então logo me ponho a correr novamente. Através do ruído, consigo ouvir os motores e buzinas dos carros. Se eu correr um pouco mais rápido logo alcançarei a ponte.
-         Ali, eu vejo algo se movendo! – Um grito vem do alto, ou seja, de algum dos helicópteros.
No desespero, meus pés, na verdade, meu corpo todo, toma um choque de adrenalina, me fazendo correr mais rápido que um animal. Pulo arbustos e galhos maiores até ver vultos ao meu lado. Quadriciclos, com dois agentes federais, por todos os lados eles me cercam. Havia três quadriciculos, cada um fechando uma rota. Não fecharam o rio porque naquela parte próximo da ponte a correnteza é mais forte, sendo então suicídio pular ali. Eu estava muito suicida ultimamente, o rio não seria uma má opção, mas lembro-me que a correnteza segue para o lado oposto do qual eu quero ir então, é realmente uma má opção pular ali. Arfando, fico observando os federais com armas apontadas para mim. Sei que não são armas reais e sim paralisantes para eu não fugir mais. O motorista de um dos quadriciclos começa a discursar, algo que eu sei quase de có:
-         Não fuja mais, Cordélia, sabe que não precisa. O governo irá te proteger. Fique ao lado da proteção e será feliz para sempre. – Uma pausa. Minha raiva só cresce. – Vamos te enviar a um lugar novo, com novos pais e uma nova história, se dará bem, creio que se dará!
A falsa animação dele me dá uma repulsa tão grande, mas eu sei que o responder do modo que gostaria não seria uma boa ideia. Irei parecer uma adolescente sofrendo de um ataque psicótico. Um problema tolo para eles. Algo fácil de lidar, mas eu quero ser mais do que um ‘probleminha’ para o Estado. Quero ser a bomba final em uma guerra. E para isso não posso ‘ficar do lado da proteção’. Um plano maluco vem em minha mente. Se aquilo falhar, irei me transformar na adolescente psicótica. De um modo dramático, caio de joelhos no chão, com a cabeça abaixada. Concentro-me enquanto os ruídos de motores me cercam. Ouço uns passos e de relance vejo que um dos federais desce do quadriciclo e vem em minha direção. Nesse momento, sinto um repuxão na minha barriga. Um dos maiores da minha vida talvez, que me faz gritar alto. Rugir na verdade. De inicio, só os barulhos de ruídos como antes. De repente, BUM. Meus olhos estão fechados e eu tremo. Quando os abro, um suspiro de surpresa escapa dos meus lábios. O meu estrago havia sido grande. Os quadriciclos estavam revirados, os federais caídos e o helicóptero estavam rodando baixo, próximo da ponte, fazendo alguns carros, frearem bruscamente.
Ainda assustada, me levanto e continuo a correr. Próximo a ponte há uma escada na qual subi rapidamente. O trânsito não havia parado por muito tempo, os carros e caminhões correm velozes pela ponte enquanto o helicóptero caíra no rio. Consigo observar ao longe os federais saindo do mesmo, tentando se salvar. O vento ali parecia mais forte, mas não me impede, corro na beirada da ponte, em direção a uma placa que dizia: Ponte Wisdom – Rodovia 57 – Próxima cidade a 14 km. Meus pés estão se tornando bons nessa coisa de correr pela vida. Talvez ser uma ‘atleta’ me ajuda nessa corrida. Mentalmente agradeci meus ‘pais’ pela primeira vez na vida. Enquanto corro, faço um sinal com as mãos para os carros pararem. Só preciso de um. Um carro pode me ajudar. Então, quase 1 km depois da ponte, um caminhão para. O caminhoneiro é bem velho, deve ter uns 70 anos. Cabelos e barbas grisalhos, a barba por fazer. Usa um boné de um time qualquer e uma blusa xadrez vermelha.
-         Entra ai.
Eu fico olhando para ele como uma idiota. Penso realmente se aquele era o tipo de ajuda que eu queria, mas quando vi que alguns federais tentam escalar a ponte, subi no caminhão sem pensar duas vezes. Assim que o fiz, o caminhoneiro acelera, ganhando logo a mesma velocidade dos outros veículos. A ponte agora é um borrão. E pela primeira vez depois de tudo aquilo começar, eu começo a sorrir.
-         Pra onde vai, mocinha?
-         Ah... Eu não sei ao certo, pra longe de Magna quercus. – Meu tom não é muito definitivo, mas é o certo a se fazer quando se esta fugindo do sistema e de pessoas que provavelmente naquela hora te odeiam.
-         Está fugindo, certo? – Os olhos do caminhoneiro estão vidrados na estrada.
-         S-sim... – Abaixo meu olhar para minha saia de líder de torcida surrada.
-         Prazer, meu nome é Edgar, mas todos me chamam de Ed. – O fito de canto e sorrio tentando parecer gentil.
-         Meu nome é... – Cordélia ou Zóe? O real ou o falso? – Cordélia.
-         Lindo nome... Deve ser uma descendente da água... É isso que seu nome significa.
-         Ah, não... Er... Meus pais eram muito amigos dos descendentes da água e quiseram homenagear uma amiga em especial, que morreu em um acidente.
-         É descendente do que, então?
Não respondi. Encolhi-me olhando a janela. Acho que Ed entendeu e se manteve quieto. E foi assim por um bom tempo, até chegarmos a um posto de gasolina. Próximo dali havia um pequeno hotel que parece ser cinco estrelas para um caminhoneiro e duas para uma pessoa acostumada com uma casa. Descemos e quando Ed me vê, arregala os olhos me fazendo ri.
-         Não vai sair assim, vá lá dentro e pegue uma de minhas roupas. – Ele aponta para o caminhão. – Tem uma garrafa de água e uma flanela velha, use para se limpar.
Assinto e adentro no caminhão. Ali é extremamente apertado e sujo. Escolho entre uma pilha, uma calça jeans e um moletom. É a única calça que acho que me serve, talvez de um tempo que Ed era mais magro. Antes, me limpo. O que é tarefa um pouco difícil por conta dos arranhões. Quando saio, Ed me fita sorridente, deixando os dentes amarelados à mostra e joga seu cigarro no chão. Adentramos a lanchonete e só ao sentir o cheiro de fritura, me lembro do quão estou faminta. Sento-me em uma mesa próxima a janela enquanto Ed faz o pedido para uma garçonete velha e muito maquiada. Só mais tarde descubro que o dom dela era o vento e por isso os hambúrgueres e as batatas vem voando.
-         O vento é um dom muito bom, sabe? – Ed me diz mastigando uma batata. - Quero dizer, nem sempre. Um vento pode apagar seu cigarro, mas pode te refrescar no verão.
-         E qual é o seu dom? – Pergunto antes de dar uma golada no meu milk shake.
-         Eu não tenho dom... Mas gosto muito das pessoas que tem... – Pelo tom de voz de Ed, percebo que há uma leve amargura.
-         Sinto muito. – Se ele acha ruim não ter dom, deve agradecer por não ter o meu dom.
Afundamo-nos então novamente em um silêncio que perdura até a hora de irmos nos hospedar no hotel. Ed paga um quarto só para mim e diz que eu não precisaria arcar com nada, ele me ajudaria. Eu não entendi muito bem, mas aceito. Tudo o que preciso é ajuda. No quarto, me dispo das roupas de Ed e vou para o banheiro. Tomo meu primeiro banho depois daquela bagunça e ali poss organizar algum plano. Eu posso ir até a capital e lá arrumar algum emprego. Arranjar documentos falsos e viver como uma pessoa normal. Posso arranjar dinheiro o bastante para sair do país de algum modo alternativo como barco ou avião monomotor. Quando dou conta que meus dedos mais parecem uvas passas do que realmente dedos, saio do banho e me deito. Durante o banho, lavei minhas peças íntimas já que sei que Ed não tem novas (Ou tem, o que seria muito bizarro) para me emprestar e as deixei secando no chuveiro.
Na cama, permaneço coberta até o pescoço para caso alguém adentre o quarto, suspiro e lembro-me da minha verdadeira família. Do cheiro de cigarro do meu pai. Do cheiro de comida da minha mãe. Do cheiro de rosas da Blanca. E do cheiro de esterco de Christian (Credo! Mesmo fedorento, ele era irritavelmente amável). O modo como morreram. Frio e cruel. Só por causa do medo que causavam em pessoas ignorantes. Eu vou causar muito mais medo nelas. Vou ser o terror das magnetisas e vou usar e abusar do meu poder para assusta-los. Com esse pensamento. Essa promessa. Caio no sono.
...
O Sol já está no meio do céu quando colocamos o pé novamente na estrada. O café da manhã fora naquele mesmo restaurante. Ovos com bacon, panquecas e café. Demoramos a sair porque Ed ficou a paquerar a garçonete que hoje usava um batom vermelho e sombra azul, estilo, pronta para matar. Revirei os olhos e fui para o caminhão. A cabine precisava de uma limpeza e foi isso que fiz. Não por gratidão, mas sim porque Ed merecia um lugar legal para ‘viver’. A careta que ele fez não demonstrou se ele gostou ou não e o silêncio continuou quando voltamos à estrada.
-         Conseguiu o número daquela... Gata exótica? – Ele ri com o apelido que inventei a garçonete.
-         Rochelle é o nome dela. E não, ela fez jogo duro e saiu rebolando aquela bunda falsa.
-         Como sabe que é falsa? – O fito um tanto curiosa.
-         Quando cada banda vai para o lado que quer, ou é falsa ou o cirurgião errou a mão. – Eu ri.

Após voltarmos para o silêncio, Ed liga o rádio. Um som country soa pelos autos falantes e ficamos então, nessa por muito tempo. Não sei exatamente para onde ele está indo, mas me mantenho quieta, não me importo por enquanto. A presença dele me faz bem e não quero aparentar não gostar da mesma. A estrada parece não mudar, sempre as mesmas montanhas com altos pinheiros. O clima nublado faz parecer que as nuvens tomaram conta do céu, onde o Sol não tinha vez. Onde só o calor dele nos tocava, nada de raios, só calor. Meus olhos pesam, acho que uma noite só de sono não basta para meu corpo. Antes mesmo de poder bocejar, meu corpo logo se desliga, como uma máquina velha, cansada de trabalhar. 

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